Os livros que passaram décadas encalhados e agora têm um misterioso comprador — a inteligência artificial
15/08/2026
(Foto: Reprodução) As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA
Getty Images
Algo misterioso vem acontecendo no mundo dos livros usados. Nos últimos meses, livreiros independentes têm observado um padrão estranho de compras, que resulta no envio de grandes quantidades de seus romances para armazéns distantes.
Em uma semana típica, Stuart Manley, da livraria Barter Books, em Northumberland, um condado no norte da Inglaterra, costumava vender entre dois e três mil livros. Mas um único pedido feito recentemente, por uma empresa canadense, igualou o volume que ele esperaria movimentar em sete dias.
Ele afirma que "nunca viu nada parecido em 30 anos no ramo de livros usados".
Manley não é o único. Livreiros de todo o mundo têm relatado megapedidos igualmente incomuns. Eles não sabem ao certo qual é o destino final de seus livros.
Mas a suspeita é que eles não estejam sendo comprados por leitores ávidos no exterior, e sim por algo mais com um apetite voraz por novas informações: a inteligência artificial (IA).
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A batalha judicial pelos livros
A ideia de que o aumento nas vendas de livros usados está sendo impulsionado pelo crescimento explosivo da IA remonta a uma decisão judicial nos Estados Unidos.
Em 2025, um juiz decidiu que o uso de livros adquiridos dessa maneira para treinar softwares de IA não constituía violação da lei de direitos autorais americana. A decisão foi resultado de um processo movido contra a empresa de IA Anthropic por três autores.
Em sua sentença, o juiz William Alsup afirmou que o uso dos livros dos autores pela Anthropic era "extremamente transformador" e, portanto, permitido pela legislação americana.
Quando os documentos judiciais foram tornados públicos no mês passado, revelou-se também que livros estavam sendo destruídos durante o processo de treinamento do chatbot de IA da Anthropic, o Claude.
"O Claude é treinado com uma combinação de dados da web disponíveis publicamente, conjuntos de dados adquiridos comercialmente e dados que nós mesmos geramos", disse um porta-voz.
Eles ressaltaram que a obtenção de livros para treinamento é uma prática amplamente utilizada em toda a indústria de IA. "Nenhum de nossos programas de aquisição de dados compra e destrói livros raros ou de antiquário", acrescentaram.
Ainda assim, a ideia de que livros estão sendo transformados em polpa de papel causa inquietação.
David Tobin, que administra a livraria Walden Books, no norte de Londres, também tem registrado vendas incomuns. "De certa forma, é muito bom vender alguns desses títulos que não eram comercializados há muitos anos, mas seria triste se eles acabassem sendo destruídos", diz ele.
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Varredura destrutiva
Documentos judiciais relacionados ao caso da Anthropic revelaram que o projeto de ingestão de livros antigos era referido em comunicações internas da empresa como "Projeto Panamá".
Os documentos indicavam que o objetivo da empresa era "digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo".
A digitalização destrutiva é o processo de enviar livros para locais onde possam ser digitalizados em escala industrial.
Isso inclui remover a lombada do livro para que todas as páginas possam ser digitalizadas rapidamente — e os restos, reciclados.
"Há muito mistério em torno do Projeto Panamá", diz Manley, da livraria Barter Books. "O nome é novidade para mim, mas a realidade do projeto não é. Ele tem sido objeto de muita discussão nos fóruns de livreiros."
Ele não sabe que seus livros estão sendo comprados para esse ou para projetos semelhantes de outras empresas de IA. Mas diz que também é difícil rastrear as vendas, que parecem aleatórias e "sem qualquer lógica aparente".
Elas variaram de textos obscuros em latim a romances de faroeste.
Especialistas afirmam que a diversidade de temas também aponta para a IA, uma vez que textos incomuns e raros poderiam fornecer material novo para aprimorar o treinamento de grandes modelos de linguagem — a tecnologia que sustenta ferramentas de IA generativa, como os chatbots.
A professora Emily Hudson, especialista em propriedade intelectual da Universidade de Oxford, afirma que as leis de direitos autorais no Reino Unido diferem das dos EUA.
"O ponto de partida no Reino Unido é que todos esses atos de cópia — criar a biblioteca de treinamento e realizar o treinamento — exigem a permissão do titular dos direitos autorais", diz ela.
As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA
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Preocupações éticas
Para os livreiros, isso representa um dilema.
Eles se sentem desconfortáveis com a ideia de livros serem destruídos — mesmo reconhecendo que nem todo título precisa ser preservado.
"Uma obra acadêmica recente, publicada em uma tiragem de apenas cem exemplares — dos quais 75 já estão em bibliotecas —, pode ser muito rara no mercado; mas talvez não seja uma perda tão grande se um exemplar for destruído", diz Derek Walker, proprietário da livraria McNaughtan's, em Edimburgo, na Escócia.
"Mas temos — e já vendemos — livros que são, por exemplo, o único exemplar conhecido de uma edição do século 18. Seria um problema muito mais grave se um livro desses fosse comprado para ser destruído, depois de ter sobrevivido por tanto tempo."
Manley afirma que a reciclagem de livros é uma boa solução para muitos títulos que o público não quer mais em suas estantes, especialmente quando isso impulsiona os negócios.
"Algumas pessoas podem ter preocupações éticas sobre o destino dos livros e se eles serão destruídos", diz ele. "Mas o mundo não precisa mais de cinco milhões de exemplares de O Código Da Vinci. Já tive livros anunciados na internet por 20 anos que não foram vendidos até hoje."